Histórico

Medicina, Ribeirão Preto, 35: 313‑320, jul./set. 2002

 

Departamento de Neurologia,

Psiquiatria a Psicologia Médica

 

Cristina M. Del Bem; Michel P. Lison & Edna M. Marturano

Docentes. Departamento de Neurologia, Psiquiatria a Psicologia Médica. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto ‑ USP

 

Departamento de Neurologia, Psiquiatria a Psicologia Médica é o resultado da fusão de 2 departamentos, o de Neurologia e o de Psicologia Médica a Psiquiatria. Historicamente, é possível distinguir no departamento três setores amplos, que se desenvolveram com projetos próprios ao longo do tempo. Esses setores correspondem às disciplinas de Neurologia, Psiquiatria a Psicologia. O relato que segue obedece a essa imposição histórica.

 

1. AS PRIMEIRAS DECADAS

 

1.1 Neurologia

 

A história da Neurologia na FMRP já integra os anais da Neurologia no Brasil. A maior parte das informações relatadas nos próximos parágrafos foi extraída do capítulo escrito por Lison para a História da Neurologia do Estado de São Paulo.

 

As atividades do Departamento de Neurologia, antes da fusão com o de Psiquiatria a Psicologia Médica, foram dirigidas, desde 1956, por Paulo Pinto Pupo, 1 Professor Livre‑Docente da Faculdade de Medicina ã da USP a Chefe da Clínica Neurológica da Escola á Paulista de Medicina, convidado, naquele ano, por Zeferino Vaz para criar a dirigir o Departamento de Clínica Neurológica. No mesmo ano de 1956, Paulo Pupo ministrou a disciplina de Neurologia, tendo como assistente Mário Martinez a organizou o departamento. Para o laboratório de líquor, Pupo convidou Isnard dos Reis Filho, que conhecia da Escola Paulista de Medicina. Já em 1956, o novo docente começou a realizar exames de líquor no Laboratório Central do Hospital das Clínicas, enquanto Mário Martinez ini­ciou atividades de encefalografia junto ao Departamento de Fisiologia, onde havia equipamento para isso. Só em 1960, com aparelhagem emprestada pela Es­cola Paulista de Medicina, foi possível a Mário Martinez instalar um serviço de EEG, próprio do De­partamento de Neurologia, no antigo HC. As ativida­des de Neurorradiografia estavam a cargo de Sylvio de Vergueiro Forjaz, que as desempenhava junto ao Setor de Neurocirurgia

 

Com a saída de Paulo Pinto Pupo, a chefia do Departamento de Neurologia foi confiada, ern fins de 1958, a Jorge Armbrust de Lima Figueiredo, então docente da Escola Paulista de Medicina a convidado por Zeferino Vaz como catedrático contratado. No início de 1959, o departamento convidou Edyrnar Jardim, formado pela Escola Paulista de Medicina em 1958, para auxiliar de ensino a incumbido de reinstalar o laboratório de líquor, que se desativara com a saída de Isnard dos Reis Filho.

 

Em 1960, incorporou‑se ao corpo docente, como instrutor, Rubens de Moura Ribeiro, proveniente da E.P.M. No ano seguinte, Michel Pierre Lison foi contratado para exercer atividades em Neurologia Experimental.

 

Seguiu‑se um período de implementação de serviços para fins assistenciais, pedagógicos a de pesquisa, apoiados, quando necessário, por outros departamentos. Destes destacam‑se o de Patologia e o de Morfologia Humana, onde puderam se desenvolver pesquisas experimentais nos domínios da Doença de Chagas (Edymar Jardim) a das alterações dos neurônios após a secção do axônio, através de métodos citoquímicos quantitativos (Michel Pierre Lison), que resultaram na elaboração das duas primeiras teses de doutoramento da área, defendidas em dezembro de 1962.

A expansão dos serviços foi rápida: inauguração, em 1961, das enfermarias de Clínica Neurológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (22 leitos), assunção da responsabilidade por seis leitos para a Neuropediatria, inicialmente no Departamento de Pediatria, criação da Residência Médica em Neurologia, em 1962, aquisição a instalação do eletroencefalógrafo próprio, substituindo aparelho emprestado da Escola Paulista de Medicina, instalado em 1959. Iniciativas de docentes surgiram desde o início da década de 60, como as de Jardim, de engajar‑se nas técnicas neurorradiológicas, prestando serviços assistenciais a de ensino aos primeiros médicos residentes, além de praticar exames eletromiográficos.

Dos primeiros trabalhos publicados pelo departamento, no início da década de 1960, destacam‑se três, de Forjáz a Martinez, em co‑autoria, versando sobre formas obstrutivas de neurocisticercose. A elevada incidência da parasitose na região levaria a uma seqüência de trabalhos clínicos que se estenderia até os dias presentes. A preocupação do serviço com esse grave problema de saúde pública da região foi fator determinante da publicação do Decreto Municipal n° 397, de 20.10.92, considerando a neurocisticercose doença de notificação compulsória.

Durante 1962, foram publicados 12 trabalhos em revistas nacionais a estrangeiras. Entretanto, em 1963, não for possível manter a mesma produção, em conseqüência do crescimento do departamento a do aumento das atividades assistenciais de rotina. Pesquisas já iniciadas foram interrompidas. A exoneração, de Mário L. Martinez, no início de 1963, agravou o problema. O reflexo dessa situação for o remanejamento interno da disciplina, voltado mais para estruturação de serviços clínicos diversificados do que para o aprimoramento científico do corpo docente a cujos efeitos perduraram até o final da década de 80. Assim, Lison abandonou seus projetos em Neurologia Básica, incluindo viagem ao Exterior, passando a atuar no Serviço de Eletroencefalografia a iniciando trabalhos em eletroencefalografia clínica a epilepsia. Estruturou‑se o Serviço de Neurologia Infantil, sob a responsabilidade de Maria Valeriana Moura Ríbeiro, contratada pelo departamento em 1963 e, a partir de 1990, de Carolina Araújo Rodrigues Funayama. Desenvolveu‑se projeto de correlação clínico‑patológica em afecções do sistema nervoso para fins cìentíficos: e reuniões clínico‑patológicas regulares a partir de. 1960, ao encargo de Richardo Antonio Gallina, transferido para o Departamento em 1967.

A projeção de departamento, na época, justificou a realização, em Ribeirão Preto, do I Congresso Brasileiro de Neurologia, em julho de 1964, sob a presidência de Adherbal Tolosa, cabendo a organização ao Departamento de Neurologia.

As atividades de pesquisa em Neurologia foram desenvolvidas com base em recursos locais. Nas duas primeiras décadas, não houve possibilidade de estágios pós‑doutorais em centros de renome internacional. A preocupação dominante era a de estruturar o serviço. O departamento, mesmo com essa falha, ganhou renome nos meios científicos nacionais, particularmente nas áreas de Neurologia Tropical, Neurologia Infantil, Eletroencefalografia a Epilepsias.

 

Em 1962, foi instalada a Residência em Neurologia, cujo primeiro preceptor foi Lison e, posteriormente, as Residências em Neurofisiologia Clínica a É. Neurologia Infantil. Tais atividades possibilitaram o exercício da especialidade pela maioria dos profissionais que atuam em Ribeirão Preto e região assim como a obtenção de título de especialista em Neurologia ou Eletroencefalografia por significativo nírmero de amigos residentes. .

 

Em junho de 1971, for autorizado Curso de PósGraduação em Neurologia, em nível de Mestrado e Doutorado, o primeiro do país na especialidade. Lison, por delegação da chefia do departamento, elaborou o projeto a foi responsável por sua coordenação até 1980. O curso for credenciado pelo Conselho Federal de Educação em setembro de 1975.

 

Em novembro de 1980, realizou‑se, em Ribeirão Preto, o VII Congresso Brasileiro de Eletroencefalografia a Neurofisiologia Clínica, sob a Presidência de Lison. Tratava‑se de experiência ousada por ser o primeiro congresso realizado independentemente do da Academia Brasileira de Neurologia e o primeiro a  ser realizado numa cidade do interior, pouco mais de um mês após o IX Congresso Brasileiro de Neurologia, em Curitiba. O bom nível de organização, o rendimento científico e o comparecimento de cerca de 300  participantes, asseguraram o sucesso do evento, do qual dependia a preservação da autonomia da Socie­dade Brasileira de Eletroencefalografia a Neurofisio­logia Clínica.

 

No início da década de 80 o setor de Neurologia encontrava‑se limitado em sua capacidade técnica a operacional. O ambiente ainda era estimulante, mas ameaçado por um processo de acomodação a de distanciamento dos progressos nos diversos domínios, agravado pelo isolamento internacional. Nessa conjuntura, foi de fundamental importância a concessão de afastamento a Amilton Antunes Barreira para estagiar no Serviço do Prof. Lapresle em Paris, entre 1980 a 1982. Na França, Barreira adquiriu conhecimentos avançados na área das neuropatias periféricas a da tomografia computadorizada graças aos contatos mantidos com Gérard Said a Odile Missir e, posteriormente, com especialistas norte‑americanos a ingleses. No seu retorno, Barreira assumiu o gerenciamento do Setor de Tomografia Computadorizada, da Unidade de Emergência e a direção do Laboratório de Neurologia Aplicada a Experimental.

Regina Maria França Fernandes, docente contratada após estágio nos Estados Unidos, implantou estudos poligráficos a eletroencefalográficos no período neonatal.

 

Américo Ceiki Sakamoto obteve afastamento para it ao exterior pelo maior tempo até então concedido pela FMRP‑USP: 4 anos (1988‑1990) para estagiar junto à Seção de Epilepsia a Neurofisiologia Clínica da Cleveland Clinic Foundation em 1990‑1992 na UBA Bethec, Bielefeld, Alemanha. Em seu retomo, organizou o CIREP‑Centro de Cirurgia de Epilepsias ‑cujas atividades iniciaram‑se em 1994. Os objetivos que norteiam o funcionamento do CIREP são o oferecimento de um atendimento integral com equipe multiprofissional a interdisciplinar aos portadores de epilepsia aos seus familiares, visando ao alívio das crises, à reabilitação e à maior reintegração social, com redução do estigma associado à epilepsia, proporcionando uma melhor qualidade de vida.

 

O preparo profissional a acadêmico dos docentes tem sido de fundamental importância para a continuidade a crescimento da contribuição do departamento à Neurologia Brasileira. Mais recentemente, as contratações de Wilson Marques Júnior a João Pereira Leite, ambos com pós‑doutorado no Exterior, contribuíram,também, para reafirmar a posição do grupo na investigação científica de importantes temas de fronteira na Neurologia.